TV Globo 60 anos: 60 horas de programação especial com novelas, bastidores e mega show

Durante quatro dias, a televisão aberta virou palco de uma maratona rara: 60 horas seguidas para celebrar um marco que atravessa gerações. A TV Globo 60 anos ganhou corpo no ar entre 24 e 28 de abril com uma curadoria que misturou memória, bastidores e estreia, sem cara de museu. Teve reencontro de apresentadores, novela mexendo no próprio roteiro, telefilmes inéditos e um espetáculo final com mais de 400 artistas nos Estúdios Globo, no Rio.
O que foi ao ar nas 60 horas
A largada foi dada com um aquecimento bem brasileiro: o Vídeo Show voltou em edição especial, logo depois de Vale Tudo. Com direção de Dani Gleiser e roteiro de Bia Braune, a bancada reabriu para nomes que marcaram época — Miguel Falabella, Cissa Guimarães, Angélica, André Marques, Otaviano Costa, Monica Iozzi e Joaquim Lopes. O programa resgatou quadros que o público sabe de cor, como o Falha Nossa e o Túnel do Tempo, passeando por cenas que formaram o imaginário da teledramaturgia.
O humor entrou pelos corredores com Paulo Vieira guiando uma volta pelos Estúdios Globo, mostrando a engrenagem que não aparece no ar: cidades cenográficas, oficinas, camarins e a força-tarefa de gravação que faz novela, série e entretenimento rodarem ao mesmo tempo. Em outra ponta, jornalistas da casa explicaram o que televisão ainda é capaz de fazer quando precisa informar e emocionar, lembrando coberturas que pararam o país.
Na sexta, o Globo Repórter mergulhou na própria linha do tempo da emissora. Em vez de um especial autoelogioso, a proposta foi revelar tropeços, decisões de risco e bastidores que moldaram a transmissão ao vivo, o jornalismo 24/7 e a ficção de fôlego. Vieram à tona processos de arquivo e restauração de imagens, mudanças de tecnologia que levaram o HD à rotina e a evolução de linguagem que trocou a locução solene pelo tom de conversa.
A maratona se espalhou pelas atrações tradicionais, que ganharam versões comemorativas. É de Casa, Altas Horas, Domingão com Huck e Caldeirão com Mion abriram espaço para convidados de várias fases, com encontros improváveis e quadros revisitados. A lógica era simples: manter o DNA de cada programa e, ao mesmo tempo, conectar o passado com a televisão que está sendo feita agora. Nesse fio, desfilou memória viva — de humoristas a autores, de atletas a repórteres de guerra.
As novelas entraram na festa sem quebrar a trama. Na faixa das seis, Tony Ramos fez uma participação especial em Garota do Momento interpretando Roberto Marinho, o fundador da Globo, como um contraponto afetivo dentro da narrativa. Às sete, Volta por Cima se despediu no sábado, abrindo caminho para a estreia de Dona de Mim no dia 28, de um jeito orgânico: o aniversário virou assunto dentro da grade, não um bloco à parte.
Na Sessão da Tarde, a emissora exibiu dois telefilmes produzidos especialmente para a data. Coisa de Novela, escrito por Lívia Leite, Renata Andrade e Thais Pontes, com direção de Manuh Fontes, brincou com a meta-história de quem vive dentro e fora do set — os clichês que o público conhece, e a engenharia humana necessária para torná-los críveis. Já Fábrica de Sonhos, dirigido por Patricia Pedrosa e Guel Arraes, com roteiro de Jorge Furtado, acendeu o farol no processo criativo: da página em branco ao primeiro take, passando por oficina de figurino, marcação de cena e aquela tensão de véspera que só quem grava entende.
A apoteose veio no Show 60 Anos, no dia 28. Foi um especial de TV com cara de festival: números musicais que revisitavam aberturas e trilhas, cenas marcantes encenadas ao vivo, blocos dedicados ao jornalismo e ao esporte e um grande mosaico de quem já passou pela casa. A cena foi montada nos Estúdios Globo, o antigo Projac — o complexo que nasceu do sonho de transformar produção em escala industrial sem perder o sotaque brasileiro. O palco teve entradas de veteranos e novos nomes, heróis e vilões icônicos reaparecendo lado a lado, e um fio de homenagem a equipes técnicas que raramente ganham os holofotes.
Esse desenho teve uma intenção clara: celebrar sem congelar o passado. Entre um tributo e outro, a grade sinalizou o que vem pela frente — novas temporadas, projetos originais e uma integração maior com o digital. A festa coube na TV aberta, mas se desdobrou em conteúdos extras nas plataformas da emissora, multiplicando bastidores, depoimentos e trechos estendidos para quem quisesse ir além do horário da exibição.
- Reencontro do Vídeo Show com apresentadores históricos e quadros clássicos.
- Globo Repórter em formato de making of da própria emissora, com histórias e desafios de seis décadas.
- Edições comemorativas de atrações de auditório com convidados que marcaram a TV.
- Participação de Tony Ramos como Roberto Marinho em Garota do Momento.
- Final de Volta por Cima no sábado e estreia de Dona de Mim em 28 de abril.
- Telefilmes inéditos: Coisa de Novela e Fábrica de Sonhos na Sessão da Tarde.
- Show 60 Anos reunindo mais de 400 artistas e equipes de Entretenimento, Jornalismo e Esporte.
Por que este aniversário importa
Seis décadas depois, a Globo ainda ocupa um lugar difícil de replicar: é uma fábrica de histórias, um centro de jornalismo e um laboratório tecnológico sob o mesmo teto. A comemoração de 60 horas reforça um princípio que ajudou a emissora a se manter relevante por tanto tempo — a capacidade de conversar com o país inteiro, da novela das seis ao plantão da madrugada, sem perder unidade.
No entretenimento, a teledramaturgia se consolidou como cartão de visita. Da exportação de novelas à formação de autores e diretores, a emissora criou uma escola própria de narrativa. O retorno do Vídeo Show, por mais curto que tenha sido, funcionou como espelho: o público gosta de ver o truque, de saber como se faz uma cena, de rir do erro que humaniza quem está no vídeo. Os telefilmes inéditos entraram nessa mesma chave, aproximando a plateia do backstage.
No jornalismo, a festa não ignorou a responsabilidade. Ao revisitar coberturas que moldaram a linguagem da TV, a programação sublinhou o papel do ao vivo, da checagem e da redundância técnica que sustenta grandes operações. Entre um quadro e outro, ficou evidente o quanto a mudança de tom — do distante para o conversado — ajudou a notícia a circular sem perder rigor.
O esporte também teve sua faixa de homenagem. Não apenas pelos gols e narradores que criaram bordões, mas pela virada tecnológica que colocou transmissões mais leves no ar, com uso de unidades móveis compactas, recursos de realidade aumentada e narração multicanais. O recado é que a cobertura de grandes eventos não é mais um produto único, e sim um ecossistema que conversa com a TV, o streaming e o celular ao mesmo tempo.
Há ainda um aspecto industrial que passa longe do glamour. Os Estúdios Globo, no Rio, formaram uma cadeia produtiva complexa, com oficinas de cenografia, figurino, efeitos especiais e pós-produção que empregam milhares de pessoas e abastecem várias frentes de conteúdo. Ao mostrar esse maquinário no ar, a emissora tratou de valorizar quem fica atrás da câmera — do operador de luz ao motorista que garante a logística funcionar.
A data também serviu para dar pistas do próximo ciclo. A sinergia com o streaming é uma realidade; projetos que estreiam na TV aberta ganham vida longa em plataformas digitais, e o inverso também acontece. Experimentos de formato — temporadas mais curtas, séries procedurais de baixo custo, novelas com arcos capitulares — convivem com as sagas tradicionais. O público escolhe como ver, e a grade aprende a respirar nesse vai e vem.
Outra camada visível foi a preocupação com diversidade, regionalização e acessibilidade. Elencos mais plurais, histórias fora do eixo Rio-São Paulo, audiodescrição, Libras e legendas em tempo real apareceram não como concessão, mas como parte do pacote. O recado é pragmático: para falar com o Brasil inteiro, é preciso abrir espaço para o Brasil inteiro — na tela e nas equipes.
Num mercado em que o streaming fragmentou a atenção, apostar numa maratona linear de 60 horas é quase uma declaração de princípios. A Globo usou o aniversário como uma vitrine do que a TV aberta ainda consegue fazer como evento ao vivo, enquanto acopla a experiência a conteúdos sob demanda. Nostalgia ajuda a trazer gente de volta; novidade é o que mantém o interesse. A programação transitou entre as duas sem escorregar na autopromoção vazia.
Por trás das luzes, ficou um aprendizado útil para o setor: curadoria conta. Em vez de um desfile infinito de melhores momentos, a emissora montou uma narrativa — com aquecimento, miolo e clímax — que guiou a audiência pela história da casa e, ao mesmo tempo, entregou produto inédito. Se a TV aberta quer continuar relevante, precisa transformar memória em entretenimento presente. Foi isso que passou pela tela nessas 60 horas.